Muito tem se falado sobre as consequências políticas e econômicas da crise que se instaurou em alguns países do Oriente Médio e do norte da África.
Essas preocupações se dão porque é nesta parte do globo que pulsa o coração energético da Terra. Sempre que o mundo presencia uma crise em regiões produtoras de petróleo, retomam-se as discussões sobre a necessidade latente de independência energética.
É verdade que o Egito e a Tunísia não possuem uma reserva expressiva de petróleo, mas a Líbia detém uma das mais importantes reservas da África. A Argélia é uma grande fornecedora, assim como o Bahrein, país fronteiriço da Arábia Saudita, maior produtora do petróleo que abastece o mundo.
Vem, com a crise, o aumento do preço do barril de petróleo e do litro da gasolina. A alta dos preços impacta diretamente as economias dos EUA e da Europa, que ainda se recuperam da grande crise. Trata-se de uma ameaça ao crescimento global e, certamente, esse é um problema digno de roubar as noites de sono dos governantes!
Mas não há razão para pânico. O risco da instabilidade no fornecimento do petróleo existe, mas devemos lembrar que os países do Oriente Médio precisam vender, já que é deste recurso natural que parte sua subsistência.
Mais preocupante que as turbulências é o fato do petróleo ser um recurso esgotável. Após a crise nuclear decorrente do terremoto que atingiu o Japão, muito se discute sobre a utilização desta forma de energia. Questiona-se a segurança dos projetos nucleares de diversos países, fato que atinge amplamente a Europa. Na França, meu país de origem, 80% da energia elétrica é atômica. Enquanto a geração de energia oriunda de fontes limpas ainda não está madura, qualquer instabilidade no Oriente Médio causará insegurança na economia mundial.
O mundo árabe está em transição, ao mesmo tempo em que o Brasil se aproxima cada vez mais dele. Empresas brasileiras que fazem negócios por lá tem se preocupado. De fato, houve saques em alguns dos países, situação que pode desencadear atrasos e até mesmo ausência de pagamento. O risco político também pode ocasionar sinistros, já que, com um banco central fechado, por exemplo, o pagamento deixa de depender só do comprador. Também não se deve esquecer do risco tradicional em transações com estes países, que é o de litígio. Quando uma empresa privada é controlada pela família de um governante, qualquer situação que caminhe para uma cobrança judicial pode ser muito arriscada. Este risco ainda existe nos países do Oriente Médio afetados ou não pela crise.
Nós, como seguradora de crédito, realizamos uma análise com indicadores que classificam o nível de risco de transações realizadas em um determinado país. Estes indicadores medem como os negócios são influenciados pelas perspectivas econômicas, financeiras e políticas externas de um país, em um ambiente corporativo. Estabelecemos um rating global para cada país avaliado, por meio da classificação do risco em sete níveis – partindo de A1 para o risco mais baixo, a D, que é o mais alto. Com as inquietudes nestas regiões, o Bahrein teve seu score reduzido de A3 para A4. O Egito, classificado antes com B, tornou-se B-. A Líbia, antes no nível C, tornou-se agora D. Também diminuímos nossos limites de cobertura para os contratos que envolvem os países confrontados por manifestações, revoltas ou guerras civis.
Claramente, uma empresa que exporta para a Líbia deveria adiar essa venda, já que não há certeza sequer sobre o recebimento da mercadoria pelo comprador. No entanto, as negociações com os outros países afetados podem prosseguir.
É possível se assegurar, por meio de produtos clássicos, como as cartas de crédito emitidas por bancos locais e confirmadas por um banco brasileiro – opção que tem se mostrado bastante cara e muitas vezes burocrática. Outra alternativa é o seguro de crédito, que se mostra mais vantajoso para as empresas, pois avalia os riscos e orienta a carteira de buyers de um cliente, para que seja tomada a decisão correta na hora de fechar negócios. Em caso de atraso no pagamento, responsabiliza-se pela cobrança e, caso haja o sinistro, 90% do valor é reembolsado, protegendo assim a saúde financeira da empresa e, até mesmo, evitando possíveis falências decorrentes da falha de um pagamento.
Tomando estes cuidados, é possível enxergar oportunidades na crise. A instabilidade no mundo árabe fará com que os investidores enxerguem a América Latina como uma zona de segurança para aplicações, abrindo novas oportunidades de negócios na região.
Posted by Joel Paillot – Presidente


