Essa é uma pergunta que muitos estamos fazendo ainda…de forma geral, a atual conjuntura econômica do Brasil está muito melhor do que a maioria dos analistas previa há um ano.
Tecnicamente não estamos mais em recessão: o IBGE constatou que o PIB cresceu 1,9% em 2º TRI /09 na comparação com o 1º TRI / 09 e decresceu 1,2% em relação ao 2º TRI / 08.
Os economistas apontam para um crescimento próximo a zero em 2009 e uma retomada de um crescimento maior que 4% em 2010.
Sabemos, no entanto, que este desempenho não foi uniforme; há ressalvas importantes a serem feitas com relação aos diferentes setores da economia.
Analisando o PIB do lado da Demanda, o Consumo das famílias e o Consumo da Administração Pública continuaram fortes, com crescimento de 3,2% e 2,2%, respectivamente, na comparação com o mesmo período de 2008.
As Exportações, embora 11,4% menor na comparação com o 2º TRI /08, apresentaram crescimento de 14,1% na comparação com o 1º TRI /09.
Os Investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo), embora 17% menor em relação ao 2º TRI /08, apresentaram estabilidade na comparação com o 1º TRI /09.
VAREJO
O varejo continua sendo o grande destaque positivo da economia brasileira.
O volume de vendas e a receita nominal do comércio varejista aceleram em julho, crescendo 0,5 % em relação a junho / 2009. Já em relação a julho de 2008, o volume de vendas e a receita nominal do varejo cresceram 5,9% e 9,4%, respectivamente.
Nos sete primeiros meses do ano, esses indicadores registraram elevação de 4,7% e 9,8%; enquanto nos últimos 12 meses, volume de vendas e receita acumularam alta de 5,8 % e 11,4%, respectivamente.
Dentre os fatores que contribuíram para este bom desempenho, destacam-se: aumento real Massa salarial, que cresceu 3,3% no segundo trimestre de 2009; aumento de 20,3%, em termos nominais, do Saldo de operações de crédito do sistema financeiro com recursos livres para as pessoas físicas, bem como aumento gradual do Crédito direto ao consumidor; Desonerações fiscais feitas pelo governo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) no setor automobilístico e na linha branca; Estabilidade nos preços (em alguns setores houve até queda nos preços); satisfatórios índices de Confiança do Consumidor. A única exceção é o varejo de Materiais de Construção, cujas variações foram de -12,5% na relação julho09 / julho08, de -10,3% no acumulado do ano e de -4,9% nos últimos 12 meses (em volume de vendas, mesmo com a redução do IPI).
INDÚSTRIA
Indústria apresentou forte queda com relação a 2008 (-7,9%), mas mostrou sinais de recuperação com o crescimento de 2,1% na comparação do 2º TRI /09 com o 1º TRI /09. Interessante notar o desempenho bastante diferente entre alguns setores da indústria; nos GRÁFICO 2 (MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS), GRÁFICO 3 (VEÍCULOS AUTOMOTORES) e GRÁFICO 4 (METALURGIA BÁSICA) observam-se alguns casos extremos de queda acentuada no final de 2008 e recuperação gradual em 2009. Por outro lado, observamos no GRÁFICO 5 (BEBIDAS) e no GRÁFICO 6 (FARMACÉUTICA) que simplesmente estes não registraram queda em 2008 e até cresceram em 2009.




Entre as categorias de uso, ainda na comparação com julho de 2008, o segmento de bens de capital permanece registrando o recuo mais elevado (-23,9%).
Ainda na comparação com julho de 2008, recuando em menor ritmo que a média da indústria (-9,9%), bens de consumo duráveis (-6,7%) registrou a menor queda desde outubro do ano passado, impulsionado, sobretudo pelo comportamento positivo da produção de eletrodomésticos (12,5%), que cresce pelo terceiro mês consecutivo, especialmente influenciado pela “linha branca” (38,2%), já que a “linha marrom” recuou 26,2%.
AGROPECUÁRIA
O resultado da Agropecuária (queda de 4,2% com relação 2º TRI /08 e queda de 0,10% com relação ao 1º TRI /09) pode ser, em grande parte, explicado pelo desempenho de alguns produtos que possuem safra relevante no trimestre e têm estimativas de queda na produção em 2009, caso da soja, do milho e do café. No último levantamento do IBGE, a estimativa é uma queda de 8,6% na safra de grãos em 2009, na comparação com 2008. Esta redução se deve principalmente a três fatores: (1) Seca ocorrida da região Centro-Sul, (2) Falta de Crédito (Bancos Estrangeiros, Bancos Especializados em Crédito Rural e, principalmente, das Tradings) para financiar as plantações (principalmente Soja, cujo plantio no Centro-Sul ocorre nos meses de Outubro, Novembro e Dezembro) e Redução de 0,4% na área plantada. Para a Safra 2009/2010, os produtores deverão enfrentar um cenário mais positivo em função do restabelecimento gradual das linhas de financiamento e da redução nos custos de plantação nos dois principais fatores de custo: fertilizantes e defensivos.
OPERAÇÕES DE CRÉDITO DO SISTEMA FINANCEIRO
Na última divulgação do Banco Central do balanço das operações de crédito de julho, o volume global de crédito do sistema financeiro aumentou 2,6 % em relação a junho, para R$ 1,311 trilhão, ou 45% do Produto Interno Bruto (PIB), comparativamente a 43,9% em junho e a 36,7% em julho de 2008. Em 12 meses, houve crescimento de 20,8%.
Observam-se, principalmente, expansões nas operações realizadas pelo BNDES e nas principais modalidades destinadas a pessoas físicas, entre as quais continuaram em destaque os financiamentos habitacionais. A representatividade dos Bancos Públicos continuou em trajetória ascendente, passando a representar 39,9% do total dos empréstimos, Os financiamentos efetuados pelo BNDES, volume de R$248,2 bilhões, registraram evolução mensal de 12,2% no mês e de 41% em relação a julho de 2008. Os créditos concedidos a pessoas jurídicas alcançaram R$ 461,3 bilhões, com redução de 0,7% no mês (que reflete o ritmo mais lento de retomada dos negócios nesse segmento, bem como o efeito contábil da apreciação cambial sobre os valores relativos às operações referenciadas em recursos externos) e incremento de 12,8% em relação a julho de 2008.
A inadimplência dos empréstimos a pessoas físicas permaneceu estável em 8,6%. Os atrasos relativos à carteira de pessoas jurídicas situaram-se em 3,8%, com elevação mensal de 0,4 p.p (ver gráfico 7).
Vale ressaltar que houve significativo aperto de crédito para as pequenas e médias empresas, o que explicaria, em parte, o aumento da inadimplência da PJ.
CONCLUSÃO
Muito embora o varejo e o consumo das famílias tenham apresentado resultados muito positivos e a indústria tenha apresentado alguma recuperação, setores cujo desempenho é fortemente ligado a investimentos, tais como Bens de Capital e Construção Civil / Matérias de Construção, bem como as empresas de pequeno e médio porte e/ou focadas em produtos de exportação, continuam sofrendo bastante com os efeitos da crise, seja pela diminuição da demanda, seja pelo aperto no crédito. Espera-se, no entanto, uma recuperação gradual destes setores, principalmente em função da gradual recuperação externa, do crescimento do PIB em 2010, do aumento da Confiança da Indústria e dos incentivos governamentais.
Posted by André Pião – Infoline