As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para novembro, podem alterar o equilíbrio de forças no Congresso, mas dificilmente reduzirão de forma significativa a influência de Donald Trump em áreas estratégicas como comércio internacional e política externa. Segundo a análise da Coface, o cenário mais provável é o de um governo dividido, com aumento do risco de impasse político interno e possíveis impactos para a economia norte-americana e para os mercados globais.
Principais números
- 2,1%: crescimento projetado para os Estados Unidos em 2026;
- 1,9%: crescimento esperado para 2027;
- 16: número de parceiros comerciais sob investigação dos EUA por suposto excesso de capacidade industrial;
- US$ 41,1 trilhões: novo teto da dívida dos EUA após o aumento aprovado em julho de 2025.
Democratas são favoritos para conquistar a Câmara dos Representantes
A poucos dias das eleições, os democratas aparecem como favoritos para recuperar a maioria na Câmara dos Representantes, onde os 435 assentos estarão em disputa.
No Senado, a disputa segue mais equilibrada. Embora os democratas tenham chances reais de obter uma maioria estreita, o resultado permanece incerto.
Caso o controle de uma ou das duas casas do Congresso mude de mãos, a capacidade de Donald Trump de aprovar novas reformas domésticas poderá ser significativamente reduzida durante os dois últimos anos de seu mandato.
Congresso dividido pode aumentar o risco de paralisação política
Uma mudança no controle do Congresso tende a criar um ambiente de maior confronto político em Washington.
Mesmo que os democratas conquistem a Câmara ou o Senado, eles não terão liberdade para aprovar legislação sem enfrentar o veto presidencial. Da mesma forma, Trump encontraria dificuldades para avançar com novas iniciativas legislativas sem o apoio do Congresso.
Esse cenário pode gerar um período prolongado de impasse político, aumentando o risco de atrasos em decisões fiscais e econômicas importantes.
Um dos pontos de atenção envolve o teto da dívida americana, atualmente em aproximadamente US$ 41,1 trilhões. A expectativa é que esse limite seja novamente alcançado em 2027, exigindo uma nova negociação entre Casa Branca e Congresso.
Embora um acordo continue sendo o cenário mais provável, um bloqueio político prolongado poderia aumentar a volatilidade dos mercados financeiros, pressionar os rendimentos dos títulos do Tesouro americano e elevar os custos de financiamento para empresas e consumidores.
Trump mantém amplo poder sobre comércio e política externa
Apesar das possíveis limitações no campo legislativo, Donald Trump continuará mantendo ampla autonomia em áreas onde a influência do Congresso é mais limitada.
Segundo a Coface, o principal foco de atenção está na política comercial dos Estados Unidos.
Atualmente, uma investigação baseada na Seção 301 das leis comerciais americanas analisa práticas de 16 importantes parceiros comerciais acusados de manter capacidade excessiva de produção industrial.
Ainda não está claro quais setores ou produtos poderão ser afetados, mas a medida pode aumentar as tensões comerciais internacionais.
Comércio internacional segue como principal fonte de risco
A avaliação da Coface indica que o comércio global continuará sendo uma das áreas mais sensíveis durante os próximos anos.
As relações entre Estados Unidos e China merecem atenção especial. A chamada "trégua tarifária" acordada em outubro de 2025 deverá expirar em janeiro de 2027, o que pode reabrir disputas comerciais entre as duas maiores economias do mundo.
Além disso, persistem divergências entre os EUA e a União Europeia em temas como:
- Guerra na Ucrânia;
- Regulação de serviços digitais;
- Política industrial;
- Questões relacionadas à Groenlândia;
- Tributação e concorrência no setor de tecnologia.
As recentes ameaças de Trump de abrir novas investigações comerciais contra empresas europeias ampliam as incertezas para empresas que atuam nos mercados internacionais.
Eleições podem limitar Trump internamente, mas não externamente
O principal resultado das eleições pode ser um paradoxo político.
Por um lado, uma eventual vitória democrata dificultaria a aprovação de novas medidas domésticas e reduziria a margem de manobra do governo no Congresso.
Por outro, Donald Trump continuaria exercendo forte influência em temas relacionados a comércio, tarifas, relações internacionais e política externa, áreas nas quais o poder presidencial permanece significativo.
Análise da Coface: atenção aos riscos geopolíticos e comerciais
Segundo a análise da Coface, o principal risco não é uma paralisação completa da agenda de Trump, mas sim uma concentração ainda maior de seus esforços em temas internacionais.
Em um cenário de Congresso dividido, o presidente tende a direcionar sua atuação para áreas nas quais possui maior autonomia, especialmente comércio exterior, tarifas de importação e relações geopolíticas.
Para empresas com operações internacionais, exportadores e investidores, acompanhar a evolução das eleições, das negociações comerciais e das decisões da Casa Branca continuará sendo fundamental para avaliar riscos e identificar oportunidades nos próximos anos.
As eleições de meio de mandato podem dar origem a um paradoxo: limitar Donald Trump em matéria de política interna sem reduzir na mesma medida sua capacidade de ação no âmbito internacional.
Portanto, o risco não é tanto que Trump fique paralisado, mas que o presidente concentre seus esforços nas áreas em que o Congresso tem menos influência: o comércio e a política externa.
explica Marcos Carias, economista especializado na América do Norte da Coface.
1 China, the EU, Singapore, Switzerland, Norway, Indonesia, Malaysia, Cambodia, Thailand, South Korea, Vietnam, Taiwan, Bangladesh, Mexico, Japan and India.




