Desaceleração do ritmo de crescimento econômico em 2026
Em 2026, espera-se que o crescimento do PIB desacelere ainda mais. A fraca atividade no 4º trimestre de 2025 deixou um pequeno efeito estatístico negativo que se estendeu até 2026 (-0,1%). O consumo das famílias — responsável por 63% do PIB em 2025 — deve continuar sendo o principal motor do crescimento, embora em um ritmo mais moderado. A flexibilização das condições de crédito (o banco central reduziu a taxa básica de juros em 575 pontos-base desde abril de 2023, levando-a a 5,75% em abril de 2026) e um mercado de trabalho favorável sustentam o consumo. No entanto, espera-se que a inflação volte a acelerar gradualmente ao longo do ano, partindo de níveis muito baixos no início de 2026, em grande parte devido aos preços mais elevados da energia, ligados ao conflito no Oriente Médio. A duração incerta das tensões geopolíticas aumenta o risco de efeitos de segunda ordem sobre a inflação, o que poderia levar o banco central a adotar uma política mais restritiva, revertendo sua atual postura expansionista (a taxa de juros real neutra é estimada em 2,5% pelo banco central). O investimento (16% do PIB) tem se mostrado fraco nos últimos anos, registrando um aumento de apenas 0,3% em 2025, após a conclusão de grandes projetos de infraestrutura em 2023-2024, incluindo a segunda fábrica de celulose da UPM e a Ferrovia Central. Em 2026 — o primeiro ano completo do governo Orsi — o investimento deverá melhorar um pouco, apoiado pela baixa base de comparação, embora as perspectivas sejam prejudicadas por um ambiente externo mais incerto e pela menor rentabilidade esperada no setor agrícola. Iniciativas públicas e multilaterais podem oferecer apoio: em novembro de 2025, o BID aprovou um programa de melhoria rodoviária no valor de US$ 675 milhões, seguido, em dezembro, por uma linha de crédito condicional de US$ 500 milhões para modernizar o transporte metropolitano de Montevidéu. Em abril de 2026, o governo também anunciou um plano de infraestrutura de US$ 2,6 bilhões para o período de 2025 a 2029, incluindo cerca de 50 licitações, das quais 40% deverão ser lançadas entre 2026 e 2027. A estratégia conta com investimento privado, concessões e acordos de PPP. Além disso, o projeto de hidrogênio verde e combustíveis eletrônicos da HIF Global, no valor de US$ 5,3 bilhões, em Paysandú, tem início das obras previsto para o segundo semestre de 2026 e conclusão prevista para 2029. Enquanto isso, espera-se que os gastos públicos (17% do PIB) cresçam a um ritmo semelhante ao de 2025, já que o governo mantém os gastos sociais de apoio ao mesmo tempo em que adia a consolidação fiscal.
Prevê-se que o crescimento das exportações desacelere, refletindo uma demanda global mais fraca, incluindo no Brasil, na China e nos EUA. Nesse último mercado, a tarifa média de importação sobre produtos uruguaios atingiu 12,2% em março de 2026. Em relação à cesta de exportações, as commodities agrícolas e o agronegócio representam cerca de 70% das exportações do Uruguai. Embora a forte demanda externa e os preços elevados devam apoiar as exportações de carne, sua contribuição positiva para o desempenho geral das exportações neste ano provavelmente será parcialmente compensada pela queda nas exportações de grãos, já que se espera que os rendimentos diminuam devido às condições de seca no final de 2025 e início de 2026.
Olhando para o futuro, as condições climáticas provavelmente mudarão, já que se espera o retorno do El Niño no segundo semestre de 2026. No Uruguai, o fenômeno é tipicamente associado a chuvas acima da média, o que — se ocorrerem na época certa e não forem excessivas — poderia beneficiar a safra de grãos de 2026-2027. Chuvas mais intensas também favoreceriam a geração de eletricidade, já que a energia hidrelétrica representa cerca de 55% da matriz energética. Por fim, a valorização real do peso argentino no que vai do ano deve impulsionar o fluxo de turistas.
Aumento moderado dos déficits gêmeos
Espera-se que o déficit em conta corrente se amplie moderadamente, impulsionado por uma redução do superávit comercial (cerca de 3% do PIB). Prevê-se que a expansão das importações supere a das exportações, refletindo a condição do país como importador líquido de energia, com um déficit energético equivalente a aproximadamente 1,8% do PIB. Como resultado, a balança comercial será afetada pelo forte aumento dos preços internacionais da energia, na sequência da escalada do conflito no Oriente Médio. Quanto ao superávit em serviços (1,7% do PIB), espera-se que permaneça amplamente estável. O superávit em serviços como TIC, desenvolvimento de software e terceirização de processos de negócios deve permanecer resiliente, enquanto a balança de viagens se beneficiará do aumento do fluxo de turistas. No entanto, é provável que o déficit em transportes se amplie devido aos custos mais elevados de frete. Por fim, projeta-se que o grande déficit de renda primária (-5,2% do PIB) melhore ligeiramente, apoiado pela menor repatriação de dividendos por parte de investidores estrangeiros em meio a uma atividade doméstica mais fraca. De modo geral, apesar de um déficit externo um pouco maior, as condições de financiamento devem permanecer favoráveis, com o investimento estrangeiro direto continuando a desempenhar um papel fundamental. Além disso, o país mantém uma sólida reserva externa, com as reservas cambiais atingindo US$ 19,1 bilhões em maio de 2026 — o equivalente a mais de 17 meses de cobertura das importações. A dívida externa situava-se em 57,5% do PIB no final de 2025, dos quais 57% são da dívida pública e 43% da privada. O Uruguai também apresenta uma posição líquida de investimento internacional negativa (–22,1% do PIB no quarto trimestre de 2025). No entanto, os riscos associados são mitigados pela composição dos passivos externos, já que uma parcela significativa consiste em investimento estrangeiro direto (os passivos líquidos de IED totalizam US$ 31,75 bilhões, ou 37% do PIB), reduzindo a probabilidade de saídas repentinas de capital.
O orçamento para 2025-2029, divulgado em agosto de 2025, projetava que o índice de déficit fiscal em relação ao PIB permanecesse amplamente estável em 2026, com a consolidação fiscal adiada para 2027. No entanto, ainda se espera que o déficit aumente ligeiramente em 2026, apesar da introdução de novas medidas tributárias. Entre elas estão um imposto mínimo nacional para multinacionais alinhado ao mínimo global da OCDE, a tributação de ganhos de capital estrangeiros e a extensão do IVA às pequenas importações por serviços de entrega. Essa deterioração esperada reflete uma dinâmica de receitas mais fraca, já que a arrecadação tributária provavelmente será prejudicada por uma atividade econômica doméstica mais fraca. O orçamento baseia-se, notavelmente, em uma hipótese relativamente otimista de crescimento do PIB de 2,2% para 2026, o que superestima as perspectivas de receita. Ao mesmo tempo, espera-se que o aumento das despesas obrigatórias, como os gastos com previdência social, mantenha o crescimento total dos gastos públicos em ritmo mais rápido do que o das receitas. No que diz respeito ao financiamento, o Uruguai continua a se beneficiar de condições favoráveis. O país apresenta alguns dos menores custos de endividamento da América Latina e mantém um perfil de vencimento da dívida de longo prazo, com um prazo médio de cerca de 11,9 anos em 2025. Isso ajuda a reduzir os riscos de refinanciamento e a vulnerabilidade geral. Além disso, a parcela da dívida pública denominada em moeda local permaneceu amplamente estável na última década, em cerca de 56% em 2025. A dívida pública também é detida em grande parte por residentes (53%, contra 47% por não residentes) e é composta predominantemente por títulos (88%) e credores multilaterais e outros (12%).
O governo de Orsi fará mudanças no sistema de previdência e defende o multilateralismo na política externa
Yamandú Orsi, da coalizão Frente Ampla (FA – esquerda), assumiu o cargo em 1º de março de 2025 para um mandato de cinco anos, após vencer o segundo turno das eleições presidenciais em novembro de 2024. Sua vitória marcou o retorno ao poder da FA, que governou o país por 15 anos antes do presidente Lacalle Pou (2020–2025), do Partido Nacional (PN – centro-direita). A coalizão FA detém a maioria no Senado, com 16 das 30 cadeiras (o PN tem nove cadeiras). No entanto, sua representação é menor na Câmara dos Deputados (48 das 99 cadeiras, contra as 29 cadeiras do PN), o que obriga o governo a negociar com os outros partidos para aprovar reformas. Além disso, o governo é composto por uma coalizão ideológica diversificada, o que dificulta a construção de consensos. O Movimento de Participação Popular, principal força dentro da coalizão governista, tende a adotar uma abordagem mais pragmática, enquanto o Partido Socialista e o Partido Comunista representam posições mais de esquerda. Como resultado, após um ano do governo de Orsi, nenhuma reforma significativa foi aprovada. Uma questão-chave na agenda política atual é o sistema de previdência, que voltou a ser debatido depois que os eleitores rejeitaram, em um referendo de 2024 apoiado pelos sindicatos, uma proposta para nacionalizar o sistema de previdência. O sistema atual baseia-se em um modelo misto, que combina o órgão público de previdência social (BPS) com fundos de pensão privados (conhecidos como AFAPs), que administram mais de US$ 25 bilhões para cerca de 1,7 milhão de pessoas. O partido governista havia feito campanha pela reforma do sistema de previdência social durante a eleição presidencial de 2024. No ano anterior, durante o governo de Lacalle Pou, os legisladores aprovaram uma lei para elevar progressivamente a idade mínima de aposentadoria para 65 anos. Em 28 de abril de 2026, o Poder Executivo apresentou o relatório final do Diálogo Social, um documento de oito meses que reuniu atores políticos, sociais e acadêmicos para compilar propostas que servirão de base para futuras reformas do sistema de proteção e previdência social. Uma das principais áreas de consenso alcançadas no processo é a priorização de políticas voltadas para crianças e adolescentes. Na área previdenciária, mudanças estruturais — como a eliminação das AFAPs (administradoras de fundos de poupança previdenciária) ou a nacionalização dos fundos de pensão — foram descartadas. Ao mesmo tempo, o governo anunciou sua intenção de criar uma nova opção de aposentadoria antecipada, permitindo que as pessoas se aposentem a partir dos 60 anos, mantendo a idade legal de aposentadoria em 65 anos. Essa opção seria voltada especialmente para trabalhadores de baixa renda, garantindo níveis mínimos de aposentadoria por meio de mecanismos de apoio solidário. A maioria das propostas exigirá aprovação legislativa, o que significa que o governo passará agora a elaborar projetos de lei e iniciar negociações políticas no âmbito legislativo.
No que diz respeito ao comércio exterior, o Uruguai é membro do Mercosul e o presidente Orsi apoia o fortalecimento do bloco, incluindo a expansão do acesso a novos mercados. Um desenvolvimento importante é o acordo comercial entre a UE e o Mercosul, que entrou em vigor em 1º de maio de 2026, a título provisório, já que a aprovação final pelo Parlamento Europeu ainda está pendente após o encaminhamento ao Tribunal de Justiça da União Europeia em janeiro de 2026. Nos termos do acordo, o Mercosul eliminará gradualmente as barreiras comerciais em cerca de 90% das linhas tarifárias ao longo de 15 anos. Em troca, a UE liberalizará uma parcela semelhante das importações e reduzirá as tarifas sobre produtos agrícolas por meio de cotas que serão ampliadas nos próximos cinco anos. O acordo também aborda as barreiras não tarifárias, promovendo medidas como procedimentos alfandegários simplificados e harmonizados. Atualmente, o Uruguai exporta aproximadamente US$ 1,2 bilhão em mercadorias para a UE, principalmente produtos como celulose, carne bovina, arroz, madeira e lã. Os principais destinos incluem a Holanda — que atua como um centro logístico —, além da Itália, Alemanha e Espanha. Além disso, o investimento estrangeiro direto é outro pilar central da relação. A UE é responsável por cerca de 46% do estoque total de IED do Uruguai, o que equivale a aproximadamente US$ 17 bilhões, especialmente nos setores de celulose, serviços financeiros e de seguros, agricultura e atividades imobiliárias. Embora o acordo não inclua um capítulo específico sobre investimentos, espera-se que ele atue como um catalisador para novos fluxos de investimento. Como parte da estratégia multilateral mais ampla do governo, o Uruguai também fortaleceu os laços com a China. Em fevereiro de 2026, Orsi realizou uma visita de Estado ao gigante asiático para aprofundar as relações bilaterais e ampliar o acesso ao mercado. A visita culminou na assinatura de mais de dez acordos de cooperação em áreas como comércio, ciência e tecnologia. Apesar desses laços mais estreitos com a China, o Uruguai tem procurado evitar tensões com os EUA. Em abril de 2026, o ministro da Economia e Finanças, Gabriel Oddone, viajou a Washington para participar das reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial. Durante a visita, ele também se reuniu com autoridades do Escritório do Representante Comercial dos EUA para discutir as relações bilaterais. Segundo o ministro, várias empresas americanas estão atualmente avaliando o Uruguai como um local potencial para projetos de inteligência artificial.
2023
2025
Crescimento do PIB (%)
3,3

Brasil
China
Estados Unidos da América
Europa
Argentina